Do perigo constante (para todos os pais lerem)

Ontem no programa The Biggest Loser, perturbou-me a história de vida da Abby. Perder assim os filhos. Não imagino o vazio, a dor dela. A inigualável mágoa que ela deve carregar todos os dias da vida dela. Tratou-se de mortes. Acidentes. 

Mas do que eu quero escrever hoje é do perigo em que muitos pais colocam os próprios filhos. Isto sim, não é acidental. Isto não é inevitável (porque é evitável). Isto é pura e completa crença de que nada de mal acontecerá, porque são eles. E, já sabemos, as coisas más "só acontecem aos outros". Há pais que expõem de tal maneira os filhos, que nem se apercebem que o que fazem, é pura e simplesmente, deixaram a porta de casa aberta durante a noite. É mais ou menos o mesmo. 

Não quer isto dizer que, com as pessoas mais atentas e mais cuidadosas, as desgraças não aconteçam (mas, sejamos realistas: com as pessoas mais cuidadosas, a probabilidade de as desgraças acontecerem é mínima. Já com as restantes, é enorme). E isto é a grande moda de hoje em dia. Nos tempos que correm, há pessoas que conhecem alguém (que lhes é completa e totalmente desconhecido) e contam absolutamente tudo o que há para contar sobre a própria vida e os filhos. Desde o nome, os gostos, o "adora isto e aquilo", até ao infantário onde andam, a zona onde moram, se chegam ou não tarde a casa, etc. E não percebem que o que acabaram de fazer é o suficiente para alguém mal intencionado dizer à criança: "Olá [nome], sou amigo dos teus pais. E sei que gostas disto e daquilo, lembras-te de mim?"E eu garanto que já vi isto (dos pais darem demasiadas informações) acontecer, numa sala de espera de médico. Os pais de uma criança simplesmente contaram tudo o que se lembraram que havia para contar a um homem sozinho que tinha ido ao médico. Se o homem podia ser um homem perfeitamente normal? Podia. Mas e quem é que garante àqueles pais que as outras pessoas não ouviram? Eu ouvi. Mais pessoas ouviram. E o perigo que teria sido se alguém mal intencionado tivesse ouvido aquilo? 

Mas há mais. Há pais que usam os famosos autocolantes nos carros de "bebé a bordo" mas em vez disso, arranjam os giríssimos, mas perigosos, autocolantes com o nome da criança "João a bordo" / "Matilde a bordo". O que significa que se algum dia os seguirem para o infantário/escola/passeio onde a criança está, a pessoa que os seguir poderá chamar a criança pelo nome , logicamente, inocentes como as crianças são, a criança automaticamente achará que é alguém amigo, conhecido da família, porque até sabe o nome dela. E sim, as crianças pensam assim. Saber o nome, para uma criança, é saber muito sobre a vida dela. Mas o cenário continua. 

Há pais que levam os filhos para os shoppings (quem diz shoppings diz qualquer local público) e andam com eles sem lhes dar a mão, continuando a caminhar e a ver montras, crentes de que a criança os segue atrás. Não lhes passa sequer pela cabeça que alguém possa aproveitar quatro segundos de distracção (entre ver uma coisa engraçada numa montra e passarem várias pessoas no mesmo corredor) para pegar na mão da criança e desaparecer com ela. E se pensam que depois podem correr para um segurança e pedir ajuda, entre os segundos que perdem a explicar e em pânico e os segundos que perdem para que o segurança chame ajuda e colegas, são os segundos que a pessoa que levou a criança demora a tirá-la dali. E isto é assustador. As duas coisas: haver pessoas que fazem isto às crianças e haver pais que fazem isto às crianças. Sempre ouvi dizer que a oportunidade faz o ladrão. E há pessoas que não percebem isto. 

Há pessoas que se lembram de travar amizade com quem quer que seja na rua, apresentando os filhos a toda e qualquer espécie de gente. Há pessoas que metem na internet informações sobre os filhos. E claro, há pessoas que metem informações dos filhos e não sabem que o fazem. Ou seja, metem pequenos nadas. Mas são pequenos nadas que, juntos, dão um muito. Basta alguém com más intenções juntar as peças. Quem são os pais, onde vivem, se estão ou não juntos, se chegam ou não tarde a casa, o fundo das fotografias (Onde parece ser? Quem parece estar? Que estilo de vida parecem ter?). O cúmulo disto é porem tudo isto em perfis de redes sociais e deixarem o acesso aberto ao perfil. E depois há aquelas pessoas que, por terem o acesso restrito ao perfil, acham-se muito seguras. Esquecem-se de que no dia tantos de há dois meses, aceitaram o convite de amizade de fulano tal que, bem, não sabem quem é mas tem amigos em comum. Se calhar vão investigar e chegam à conclusão que não são nada amigos em comum, porque o amigo que os têm também nos amigos, só os adicionou porque eles eram amigos comuns de outro qualquer. Resumindo: ninguém sabe quem são aquelas pessoas. Mas o que interessa é que tenham Farmville e enviem vacas, porcos, morangos e cavalos. E assim estamos. 

Troca-se a segurança das crianças, dos próprios filhos, a troco de nadas. A troco de quintas, morangos e cavalos, note-se: artificiais, porque nem reais são. Troca-se a segurança dos filhos por um sentimento de "é tão giro ter um autocolante com o nome no carro. Muito mais original". Troca-se a segurança por um querer mostrar ao mundo que se tem filhos maravilhosos. É preciso que os pais se lembrem de que o mundo não precisa de saber que os filhos deles são maravilhosos. As únicas pessoas que precisam de saber isso são os próprios pais e os filhos. Mais ninguém. Porque há aqui uma coisa que muitas pessoas se esquecem: quanto mais elogiam os filhos, quanto mais os metem num pedestal, quanto mais os mostram ao mundo, quanto mais deixam a conhecer pequenos nadas deles (achando que estão a controlar tudo e que é seguro) mais probabilidades há de que alguém com más intenções neste mundo (e o mundo está cheio) acredite realmente neles, nestes pais, e queira essa criança que, segundo se proclama, é maravilhosa.
 
Isto dá que pensar. E sinceramente assusta-me o desleixo das pessoas. Os pais podem amar incondicionalmente os filhos e perde-los a troco de nada. Será que vale a pena? Será mesmo mesmo que vale a pena correr esse risco, a troco de se ser mais engraçado, de mostrar só um bocadinho mínimo (mas significativo) dos filhos? E isto não é um texto recriminatório.  Já dizia alguém: quem te avisa teu amigo é. E é verdade. Os avisos chegam-nos sempre de pessoas que nos querem bem. Que se preocupam. Porque todos erramos. Todos corremos riscos que muitas vezes nem sonhamos que corremos. 

Isto é só um testamento desabafo. Porque me preocupa.

E é também, quem sabe, o maior texto publicado num blogue :)

14 comentários:

Marta disse...

Que gande texto. Em todos os sentidos: grande porque é mesmo longo (mas lê-se muitooo bem! adorei) e grande porque está muito bem escrito! Isto é uma realidade infelizmente... o nosso mundo está cada vez pior e mais perigoso... é mesmo preciso que tenhamos todos o máximo cuidado!

Parabéns pelo post

Marta disse...

E este é o meu post favorito de todos os que já escreveste. Por isso essa coisa de ser muito comprido não faz mal, porque eu gostei e muito.

Sofia disse...

estou de queixo caído!!

adorei, adorei o post... muito bom!

Garcia disse...

Concordo com cada linha escrita

Garcia disse...

Concordo com cada linha escrita

Joan@ disse...

fantástico post!

Joan@ disse...

também vi o programa, foi tão triste, até me vieram as lágrimas aos olhos... :(

Este Blogue precisa de um nome disse...

Olá Miss Daisy

Realmente já falei disto no meu blogue e haverá muitos mais perigos do que estes que aqui relatas. Concordo contigo em absoluto. Eu não tenho facebook, nem a MC (minha filha), não tenho fotografias dela no blogue ou melhor, tenho duas as quais é impossível reconhecerem-na e só as pus lá porque fazia anos e não vi mal nenhum nisso, são fotos em que nem se vê a cara.
É verdade que ela não me pediu para eu ter um blogue e tem direito à sua intimidade dela, sem sombra de dúvida. Mas, mesmo com tudo isto julgo que saberem onde vivo e contar uma ou duas graçolas da MC em nada a exponho.
Nos últimos dois dias é o segundo post que leio dentro do género e que me deixaram a pensar. Aliás, julgo eu que são escritos para isso mesmo para nós mãe pensarmos. Mas, mesmo contando uma ou duas coisas com piada da MC -próprias da idade e que em nada a fazem génio ou diferente das outras crianças- não considero que a exponha em demasia. Mas, estou sempre aberta a criticas (construtivas) e a outros pontos de vista. Parabéns pelo texto! Beijo
Rita

P. disse...

Parabéns pela abordagem do assunto. Sem atacares, chegaste ao ponto certo: deixaste as pessoas a pensar

Maria disse...

Fez-me repensar em muitas coisas. Obrigada Miss Daisy :)

Maria disse...

Aproveito para dizer mais: a partir de hoje vou mudar várias coisas

Este Blogue precisa de um nome disse...

Gralha: "tem direito à sua intimidade dela" o dela está a mais.

Quando digo que sabem onde vivo é o nome da localidade e não a morada. Numa localidade com cerca de 20.000 habitantes julgo não ser fácil saberem quem ela é :) (digo eu...)

Beijo

Princesa Tagarela disse...

...eu, mãe de três filhos, não sendo demasiado obcecada pelo assunto...tenho a consciência do quanto é necessário ou mesmo imprescindível a observância e execução das medidas que abordastes neste texto!!
Adorei o mesmo... longo...mas muito bem escrito !!! Obrigado!!

;))

A. disse...

Se houvesse um botão a dizer partilhar, partilhava já já este post... vim aqui parar nem sei como e este blog pôs em palavras tanta tanta coisa... às vezes uma pessoa nem pensa... não consegue antever as consequências de determinado acto... só espero nunca pôr em causa a segurança dos meus por um descuido e falta de atenção. "Adorei" o post...